Cientistas desvendam como morcegos sustentam ecossistemas em Carajás
Pesquisas do Instituto Tecnológico Vale (ITV) revelam o papel essencial desses mamíferos alados na conexão entre floresta e cavernas em uma região singular, onde a riqueza mineral convive com uma extraordinária biodiversidade subterrânea. Morcegos são vitais para a polinização, a dispersão de sementes, o controle de pragas e a sobrevivência de outras espécies.
Por que contar esta história é importante?
Estudos na região de Carajás evidenciam os importantes serviços ecossistêmicos prestados pelos morcegos. Eles garantem, inclusive, a sobrevivência de outras espécies. Para protegê-los, é preciso superar estigmas e informar sobre seus hábitos e interações com o meio ambiente.
Parcerias e colaborações
As pesquisas do ITV sobre morcegos têm parcerias e colaborações com instituições como o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, a Universidade Federal de Lavras, a Universidade Estadual Paulista, a Universidade Federal de Pernambuco, a área de espeleologia da Vale e a Universidade do Norte do Arizona.
Glossário Mata N'Ativa
Trabalhamos pelo acesso ao conhecimento científico. Não deixe de explorar o glossário ao final da história para ter uma maior clareza sobre cada um dos conceitos abordados no texto!
Acessar Glossário
Na escuridão de uma das mais de 2 mil cavernas ferríferas cavernas que se formam em rochas de minério de ferro também conhecido como ecolocalização, o sistema sonar dos morcegos emite ondas sonoras que rebatem nos objetos e retornam aos morcegos, produzindo eco. Assim, esses mamíferos conseguem 'ver' por meio do som e se locomovem ou caçam em ambientes escuros.Cavernas ferríferas
Sistema sonar
Poucos animais sustentam tantos sistemas ecológicos quanto esses mamíferos alados. Eles dispersam sementes, controlam populações de insetos e polinizam flores. No chão das cavernas, onde se abrigam para descansar, o acúmulo de suas fezes, o chamado guano qualquer elemento ou material que sirva como primeira origem de nutrientes em um ecossistema; no caso das cavernas, o guano (as fezes dos morcegos) se encaixa nesta categoriaFonte primária de nutrientes
Entender esses animais – seus hábitos de voo, de caça, de abrigo e de interação com o ambiente – é a missão de pesquisadores como a bióloga Valéria Tavares, do Instituto Tecnológico Vale (ITV), especialista no tema há mais de 30 anos. “Na época em que me formei, a gente brincava que dava para juntar num Fusca todo mundo que trabalhava com morcego. Havia muitas perguntas em aberto”, conta. Entre as diversas frentes de pesquisa dos cientistas em Carajás estão estudos de história natural, genética, acústica e comportamento. O objetivo: entender como esses animais sustentam os ecossistemas mais improváveis da região amazônica.







Mais de 80 espécies de morcegos habitam a Floresta Nacional de Carajás, no sudeste do Pará. Algumas se alimentam de néctar e polinizam uma vasta variedade de plantas. Outras, ao se alimentarem de insetos, regulam as populações e evitam desequilíbrios, como as pragas para a agricultura.
Há ainda outras espécies que comem frutos, dispersam sementes e semeiam novas plantas. Muitas também habitam a escuridão. E sustentam outros ecossistemas.
Por não haver luz solar no ambiente interno das cavernas (zona afótica), não há vegetação fazendo fotossíntese.
A principal fonte de energia é o guano dos morcegos – suas fezes.
Esse guano alimenta uma biodiversidade pouco conhecida, incluindo os troglóbios, como este amblipígio.
São bichos que desenvolveram adaptações extremas, como perda total ou parcial dos olhos e pigmentação reduzida. São, portanto, totalmente dependentes das cavernas. Aqui, um diplópode.
Os morcegos de Carajás circulam entre florestas, cangas e cavernas, sendo essenciais para a conservação dos ecossistemas da região.
Estima-se que existam cerca de 80 espécies de morcegos em Carajás, das quais mais de 20 utilizam cavernas para abrigo e reprodução. Atualmente, os pesquisadores do ITV trabalham numa atualização dessa lista, para registrar também o grau de dependência das espécies com relação às cavernas.
O trabalho de campo exige familiaridade com morcegos diversos que, muitas vezes, se distinguem entre si por sutis traços dentários, cranianos ou acústicos. Um dos equipamentos usados para capturá-los são as redes de neblina, finíssimas, praticamente invisíveis, que são esticadas entre árvores ou na entrada de cavernas. Quando colidem com elas, os mamíferos ficam momentaneamente presos, permitindo que os pesquisadores os retirem com cuidado e façam registros morfológicos, coleta de amostras e marcações. Minutos depois, eles são liberados, quase sempre intactos. Também são usadas as chamadas armadilhas de harpa, estruturas metálicas com fios de nylon paralelos que confundem o sonar dos animais e interceptam seus voos.
Entre as espécies mais estudadas por Tavares está o minúsculo morcego-sem-polegar (Furipterus horrens), que tem cerca de 4 centímetros de corpo e menos de 5 gramas. Antes considerado raro, o Furipterus mostrou-se comum em cavernas de Carajás, onde formam colônias numerosas de mais de 200 indivíduos. A bióloga liderou estudos genéticos sistemáticos, revelando, em um artigo publicado na revista Mammalian Biology, que o Furipterus horrens pode, na verdade, integrar um complexo de até seis linhagens geneticamente distintas, uma delas endêmica da região.
A descoberta lançou luz sobre a diversidade oculta da fauna cavernícola amazônica e ampliou a compreensão sobre os processos de especiação – ou seja, o surgimento de novas espécies – em ambientes subterrâneos isolados. A presença dos Furipterus nas cavernas e o compartilhamento do espaço com outras espécies de morcegos e organismos troglóbios permitiu entender a interdependência entre os animais e os fluxos de energia trazidos do ambiente externo.

Uma colônia de morcegos, principalmente das espécies Pteronotus rubiginosus e Pteronotus personatus, na Caverna Fantasma, uma das mais de 2,5 mil cavernas de ferro mapeadas na região de Carajás, na Amazônia Oriental. FOTO: Daniel Menin
Compreender para conservar
A fauna da escuridão é altamente especializada, com seres que dependem ou não de interação com o mundo exterior. Os troglóbios vivem exclusivamente em cavernas e desenvolveram adaptações morfológicas e fisiológicas extremas, como perda total ou parcial dos olhos e pigmentação reduzida. Um exemplo emblemático é o aracnídeo Charinus ferreus, presente em Carajás. Com olhos vestigiais e movimentos cautelosos, ele se orienta pelo tato, explorando os recantos mais escuros das galerias. Já os animais troglófilos vivem tanto dentro quanto fora de cavernas, embora dependam delas em algum momento de seu ciclo de vida, caso de alguns insetos e aranhas. Por sua vez, os trogloxenos utilizam as grutas apenas como abrigo temporário. Morcegos, sapos e algumas cobras se encaixam nessa categoria. Certas serpentes frequentam a escuridão para termorregulação e para caçar – e se alimentam justamente dos morcegos, numa relação que insere a caverna em uma ampla teia ecológica.
A diversidade morfológica e comportamental dos morcegos de Carajás impressiona. Enquanto Furipterus prefere voos em áreas abertas e caça em pleno ar, o Lonchorhina aurita adota estratégias de forrageamento conjunto dos comportamentos utilizados por uma espécie para encontrar alimentos, como presas ou plantasForrageamento
“Só dá para conservar bem o que a gente conhece. Trabalhamos com genômica para entender as populações, saber se estamos lidando com uma ou várias espécies e como elas estão distribuídas. Esses dados orientam decisões sobre áreas prioritárias e impactos de empreendimentos”, afirma Bento.


Um dos avanços mais interessantes na pesquisa se deu pelo uso da radiotelemetria, tecnologia que permite acompanhar, com precisão, os deslocamentos dos indivíduos. Em um estudo conduzido pelo ITV e pela Vale, pequenos transmissores de sinais de rádio foram fixados no dorso de morcegos cavernícolas. O objetivo era mapear suas rotas noturnas e entender até onde esses animais se deslocam para se alimentar. “Achávamos, por exemplo, que o F. horrens voava apenas no entorno da caverna, mas na verdade a espécie circula por grandes distâncias. Isso indica que ele pode estar forrageando em áreas abertas, o que muda nossa compreensão sobre o uso do habitat”, diz Valéria Tavares.
O estudo, publicado em 2025 na Plos One, demonstrou que espécies insetívoras naturalmente raras, mas comuns em Carajás, têm média de deslocamento de 2,5 quilômetros. Alguns indivíduos chegam a 10 quilômetros. Esse movimento noturno conecta fragmentos de floresta, bordas de mineração e zonas de mata contínua. O mesmo ocorre com espécies frugívoras. Ao fazer isso, os morcegos funcionam como elos dinâmicos entre paisagens naturais e antrópicas, transportando nutrientes, sementes e energia. A conservação dos refúgios subterrâneos, portanto, pode ter implicações diretas sobre a saúde ecológica da superfície, e vice-versa.
Ao dispersarem sementes por grandes distâncias, os morcegos frugívoros espécies que se alimentam principalmente de frutos espécies que se alimentam principalmente de insetos espécies que se alimentam principalmente de néctar, o líquido açucarado produzido pelas floresFrugívoros
Insetívoros
Nectarívoros
Apesar de, no senso-comum, os morcegos serem conhecidos por se alimentarem de sangue, apenas três espécies são hematófagas no mundo. Duas delas estão presentes em Carajás: o morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus) e o morcego-vampiro-das-pernas-peludas (Diphylla ecaudata). Com incisivos cortantes, eles dobram a língua e fazem uma espécie de canudo para sugar o sangue. Para garantir o fluxo do alimento, a saliva possui uma substância anticoagulante.


Entre os vários traços anatômicos que revelam adaptações alimentares, estão as características de dentição. Espécies insetívoras, como o F. horrens, apresentam dentes afiados, capazes de perfurar a quitina substância dura e resistente que forma a parte externa do corpo dos insetos, o exoesqueleto estrutura rígida que reveste o corpo dos insetos com as funções de proteção, sustentação e movimentoQuitina
Exoesqueleto
Afinal, morcego não é tudo igual. Talvez o mais enigmático já registrado na região de Carajás seja o majestoso Vampyrum spectrum: com envergadura que pode passar de um metro, o andirá-açu tem olhos dourados e asas largas. Fazendo jus ao nome, raramente é visto; cada registro seu é tratado como um acontecimento, uma aparição. E, embora não seja um cavernícola estrito, o Vampyrum utiliza cavidades naturais como abrigos. Sua presença na paisagem serve como indicativo de conectividade florestal e de integridade dos ecossistemas. “É um bicho de topo de cadeia, o maior morcego das Américas. Carnívoro, ele pode comer roedores, vertebrados pequenos e até mesmo outros morcegos. Seu papel é similar ao da onça, que é um grande predador de topo da cadeia alimentar”, diz Tavares.
Outra forma de desvendar as interações ecológicas dos morcegos é por meio da análise dos sons que emitem, boa parte deles inaudíveis a seres humanos. Por isso, o ITV lançou a chamada Fonoteca de Carajás (ou FoCar), que vai armazenar as gravações feitas em campo. “Como a acústica facilita a detecção destes animais tímidos, começamos a entender que algumas cavernas de fato abrigam colônias – onde possivelmente os animais vivem há décadas – enquanto outras são ocupadas apenas de vez em quando. Para dar certo, a gente precisa capturar e gravar os sons das espécies, entender seu repertório, e assim automatizar esse processo e saber onde estão”, explica Leonardo Trevelin, pesquisador do ITV.
Uma boa parte das espécies possui padrões sonoros próprios – frequências, durações e ritmos – que permitem sua identificação sem a necessidade de captura. Essa abordagem reduz o estresse nos animais e amplia a eficiência dos inventários biológicos. O objetivo é que a FoCar não sirva apenas à pesquisa científica, mas se torne um repositório de referência para outras instituições e consultorias ambientais.


Identificação e licenciamento
A Unidade Espeleológica unidade geográfica com concentração de cavernas e cavidades subterrâneas com processos geológicos e hidrológicos comuns, como a formação de galerias subterrâneas e o escoamento de rios e lençóis freáticosUnidade espeleológica
Diferentemente das formações de calcário, mais conhecidas, as cavernas ferríferas têm características geológicas e ecológicas únicas: são menores, mais instáveis e difíceis de mapear. Ainda assim, sustentam uma fauna adaptada a um ambiente onde a umidade é alta, a luminosidade nula em parte de sua área e a disponibilidade de nutrientes depende quase totalmente da matéria orgânica trazida do exterior, sobretudo por morcegos. Dentre elas, destacam-se ainda as chamadas “batcaves”, formações com dezenas de milhares de morcegos. Em Carajás, há cerca de dez. “São ambientes extremos, muito quentes, cheios de guano e insetos. Para estudá-las, os pesquisadores usam trajes especiais, quase como astronautas”, explica Diego Bento.
As cavernas se espalham ao longo de um mosaico de unidades de conservação, terras indígenas e áreas de mineração, uma região única por combinar riqueza mineral com uma extraordinária biodiversidade subterrânea. “Isso criou uma demanda enorme por conhecimento”, diz Trevelin.
O ICMBio atua como órgão técnico responsável pela análise da viabilidade de empreendimentos em áreas de interesse ecológico, como a Flona de Carajás. Depois da prospecção e identificação da caverna, técnicos e pesquisadores avaliam aspectos físicos, geológicos e biológicos, determinando seu valor como patrimônio espeleológico. “A caverna é classificada de acordo com sua relevância (baixa, média, alta ou máxima) e isso orienta se pode ou não ter impactos negativos irreversíveis”, conta Xavier Prous, gerente técnico de estudos ambientais de longo prazo na mineradora Vale. “Já tivemos situações em que a presença de uma população de morcegos exigiu a preservação da caverna e o redesenho do projeto”, diz Mariane Ribeiro, analista ambiental da gerência de espeleologia e tecnologia da Vale.

MMorcegos e pesquisadora na caverna S11_0007, na região de Carajás. Algumas das cavernas da região abrigaram, há centenas de milhares de anos, animais gigantes já extintos. Este 'túnel' por onde passa a pesquisadora Maria Aparecida de Souza pode ter sido escavado por um tatu-gigante, por exemplo. FOTO: Daniel Menin
“Considerando a importância da colônia de morcegos, pode-se mudar o desenho da mina, preservar o entorno da caverna ou alterar a forma de exploração. O objetivo é garantir que a população de morcegos continue usando aquele abrigo com a menor influência possível das operações”, completa Prous.
O cuidado se justifica. As cavernas de Carajás são marcadas por alta taxa de endemismo quando uma espécie ocorre exclusivamente em uma determinada região geográficaEndemismo
Mas há também morcegos ameaçados pela supressão de habitats, como o Natalus macrourus e o próprio Furipterus horrens, que dependem exclusivamente de cavernas como abrigo.
Com sua pelagem clara e o focinho alongado, o Natalus chama atenção por suas orelhas em forma de funil. Ele se alimenta sobretudo de insetos capturados no ar e sofre com as perturbações ambientais, sendo assim um bioindicador valioso da qualidade da conservação das cavernas.
Na fronteira entre mineração e meio ambiente, não há escolhas simples em Carajás. De um lado, o solo concentra uma das maiores reservas minerais do planeta; de outro, as cavernas abrigam vidas únicas, insubstituíveis. O mais importante, todos concordam, é valorizar a ciência na compreensão da complexidade dos ecossistemas subterrâneos. O desafio é equilibrar conservação e desenvolvimento, num cenário de alta pressão econômica e biodiversidade pouco conhecida. “Estamos aqui porque acreditamos que é possível desenvolver a mineração sem gerar danos irreversíveis ao patrimônio espeleológico e à biodiversidade”, finaliza Xavier Prous.
As ilustrações desta página são recursos artísticos visuais para fins didáticos e não representam ilustrações científicas.
GLOSSÁRIO
Cavernas ferríferas
cavernas que se formam em rochas de minério de ferro
Sistema sonar
também conhecido como ecolocalização, o sistema sonar dos morcegos emite ondas sonoras que rebatem nos objetos e retornam aos morcegos, produzindo eco. Assim, esses mamíferos conseguem 'ver' por meio do som e se locomovem ou caçam em ambientes escuros.
Fonte primária de nutrientes
qualquer elemento ou material que sirva como primeira origem de nutrientes em um ecossistema; no caso das cavernas, o guano (as fezes dos morcegos) se encaixa nesta categoria
Forrageamento
conjunto dos comportamentos utilizados por uma espécie para encontrar alimentos, como presas ou plantas
Frugívoros
espécies que se alimentam principalmente de frutos
Insetívoros
espécies que se alimentam principalmente de insetos
Nectarívoros
espécies que se alimentam principalmente de néctar, o líquido açucarado produzido pelas flores
Quitina
substância dura e resistente que forma a parte externa do corpo dos insetos, o exoesqueleto
Exoesqueleto
estrutura rígida que reveste o corpo dos insetos com as funções de proteção, sustentação e movimento
Unidade espeleológica
unidade geográfica com concentração de cavernas e cavidades subterrâneas com processos geológicos e hidrológicos comuns, como a formação de galerias subterrâneas e o escoamento de rios e lençóis freáticos
Endemismo
quando uma espécie ocorre exclusivamente em uma determinada região geográfica

