
a economia do clima
Finanças verdes: capital público alavanca investimentos privados em negócios sustentáveis
Novos mecanismos financeiros reduzem incertezas e ampliam o fluxo de capital para a agenda climática. Estratégia está por trás de iniciativas que já mobilizaram R$ 140 bilhões em recursos para a economia de baixo carbono no Brasil.
Por que contar essa história é importante?
Apesar de serem essenciais para enfrentar a crise climática, muitos projetos sustentáveis envolvem tecnologias e modelos de negócio ainda pouco consolidados, o que aumenta os riscos para investidores. Esta história mostra como Brasil e Reino Unido vêm desenvolvendo mecanismos financeiros, assistência técnica e incentivos capazes de reduzir essas incertezas e atrair capital privado para iniciativas ambientais inovadoras.
Parcerias e colaborações
O Reino Unido apoia ações voltadas às finanças verdes por meio do International Climate Finance (ICF), iniciativa global de financiamento climático. No Brasil, a atuação se dá por intermédio de programas como UKSIP e UK PACT, que envolvem parcerias com o governo federal, governos subnacionais, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o programa Eco Invest, o Serviço Florestal Brasileiro, instituições financeiras, empresas e organizações da sociedade civil ligadas à agenda de desenvolvimento sustentável.
Glossário Mata N'Ativa
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O Brasil ocupa posição estratégica no mercado global da sustentabilidade. As imensas reservas de água doce, a biodiversidade rara e uma matriz elétrica pouco dependente de combustíveis fósseis tornam o país um laboratório ideal para a busca de soluções de baixo carbono em diversos setores – da produção de biodiesel à restauração florestal. O ambiente favorável para projetos e investimentos, com empresas e governos abertos a parcerias, pode consolidar o Brasil na liderança das chamadas “finanças verdes”.
Iniciativas no setor se estabelecem em diferentes regiões e biomas do país. No Rio de Janeiro e no Maranhão, as concessionárias Aegea e BRK Ambiental trabalham atualmente em projetos que visam expandir o acesso à água e ao saneamento básico a milhões de pessoas. São empreitadas robustas de infraestrutura com investimentos parcialmente garantidos pelo Reino Unido e atrelados a um gatilho essencial: o cumprimento de metas de mitigação de gases do efeito estufa (GEEs) com uso de tecnologias, estratégias e processos inovadores.
A ideia é impulsionar a troca de práticas antigas por alternativas com menor impacto ambiental. Os recursos garantidos quando as metas são alcançadas eliminam o risco do negócio e abrem as portas para uma nova realidade – o desenvolvimento aliado à conservação. “É um mecanismo que chamamos de performance based incentives (incentivos baseados em performance). São recursos para implementar modelos mais sustentáveis e entender se são economicamente viáveis ou não”, diz Andres Comba, diretor do UK PACT e assessor sênior em Finanças Verdes da Embaixada do Reino Unido. Caso a empreitada seja bem-sucedida, pode-se com o tempo eliminar esse incentivo, argumenta Comba, “pois, se o modelo econômico funcionar, as empresas vão continuar com ele.”
Os performance based incentives são exemplos de como governos e entidades multilaterais atuam para alavancar a participação da iniciativa privada em práticas inovadoras que resultem em impactos positivos na redução da emissão de gases do efeito estufa, na preservação florestal e no desenvolvimento econômico sustentável. Trata-se de um dos pilares dos recursos destinados pelo Reino Unido ao Brasil dentro de uma agenda ambiental e de infraestrutura.

Com a presença da então ministra Marina Silva (ao centro), a embaixadora do Reino Unido para o Brasil Stephanie Al-Qaq (à esquerda) e o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento Ilan Goldfajn, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima lança o 3º Leilão EcoInvest, em novembro de 2025, em Brasília. Foto: Fernando Donasci/Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima
Em várias frentes no mundo todo, o país europeu já repassou pelo menos R$ 4,5 bilhões por meio do International Climate Finance (ICF), programa do governo britânico idealizado para auxiliar países em desenvolvimento a enfrentar mudanças climáticas. Criado em 2011, o ICF é fruto do avanço das discussões multilaterais sobre o tema, como o Acordo de Paris em 2015, e se tornou símbolo do compromisso do Reino Unido em se tornar uma liderança climática global.
Na prática, o ICF é como um guarda-chuva que cobre uma ampla gama de programas com objetivos distintos. Entre eles está o UKSIP (Programa de Infraestrutura Sustentável do Reino Unido, na sigla em inglês), de onde sairão os valores dedicados aos projetos de saneamento da Aegea e BRK – cerca de R$ 100 milhões e R$ 60 milhões, respectivamente, caso cumpram as metas estabelecidas.
Ao todo, os recursos dedicados a finanças verdes enviados ao Brasil somam mais de R$ 1,2 bilhão, distribuídos em nove programas nas áreas de transição climática, florestas, energia e agricultura. Comba ressalta, contudo, que o sucesso da parceria não depende apenas de aportes financeiros diretos. “A colaboração entre Brasil e Reino Unido também envolve criação de capacidade técnica, e isso é difícil de monetizar”, diz. Um exemplo desse esforço é o trabalho junto ao governo brasileiro para aprimorar processos de funcionamento de programas nacionais de finanças verdes e auxiliar empresas a navegar por esse modelo.
É um complemento ao que o diretor do UK PACT define como os dois pontos centrais da atuação do Reino Unido: em primeiro lugar, trabalhar para que o sistema financeiro do Brasil como um todo se torne mais verde, com a inclusão da sustentabilidade como um objetivo estratégico de instituições financeiras. E, depois, auxiliar na criação de mecanismos para tornar viáveis tais investimentos.


“São iniciativas de longo prazo, as instituições financeiras não estão acostumadas”, avalia Comba. Além disso, diz ele, a natureza de alguns projetos carrega muitas incertezas. “Em um trabalho com florestas, por exemplo, há muitos riscos que não se pode controlar. É mais complexo prever qual será o produto final em 20 anos.”
Apesar dos desafios, estamos diante de um caminho sem volta. Não há dinheiro público suficiente para fazer uma transição concreta rumo a uma nova economia. Uma das metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 13 (ODS 13), estabelecido pelas Nações Unidas, é a mobilização de U$ 1,3 trilhão (R$ 6,7 trilhões) por ano até 2035 para financiar ações de mitigação e adaptação climática, como a transição energética rumo a fontes mais limpas. Para fazer isso, é indispensável fortalecer as finanças sustentáveis.
O mundo tem uma necessidade enorme de adotar medidas de mitigação e adaptação de projetos, a um custo que governo nenhum vai conseguir. É indispensável atrair o setor privado.
Andrea Minardi, professora e pesquisadora sênior no Insper, que atua com finanças verdes
Para acompanhar essa realidade, o Reino Unido está mudando o foco: de um modelo baseado em doações para outro, centrado em investimentos. É o que explica Evie Robertson, assessora para o desenvolvimento do setor privado no UKSIP.
“Para nós, apostar em finanças verdes é uma questão de como podemos ser mais eficientes e gerar um impacto mais amplo em termos de soluções financeiramente viáveis para estes desafios”, afirma Evie. Nesse cenário, o Brasil é um celeiro de oportunidades. “O Brasil tem um mercado de capitais muito grande, com muita inovação financeira, além de apoio político e estrutura adequada.”
Macaúba rumo ao céu
Na Bahia, o fruto de uma palmeira típica está em vias de se tornar uma alternativa para manter o setor aeronáutico operando de maneira mais limpa. A macaúba está no centro de um projeto que possui investimentos iniciais de mais de R$ 4 bilhões para o desenvolvimento de um combustível de aviação sustentável (SAF, na sigla em inglês). A parcela inicial desse montante, R$ 500 milhões, foi disponibilizada com recursos públicos por meio do programa Eco Invest.
Criado no final de 2024, o Eco Invest é uma iniciativa do governo brasileiro na área de finanças verdes e um dos maiores exemplos globais de financiamento misto (blended finance). Desde sua concepção, o programa, implementado em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), recebe auxílio do Reino Unido para se viabilizar de forma eficiente.

Plantação de macaúba da Acelen Renováveis, na Bahia. Com apoio do programa Eco Invest, o projeto pretende produzir combustível sustentável de aviação a partir de uma palmeira nativa brasileira capaz de gerar até dez vezes mais óleo por hectare do que a soja. Foto: Divultação/Acelen Renewables
“O Reino Unido apoiou diversas iniciativas para a formulação técnica do programa, como o patrocínio de consultorias que nos ajudaram a montar os instrumentos que temos à disposição”, explica Mario Gouvêa, membro do Conselho Executivo do programa. “A parceria foi fundamental para nós.”
De maneira simplificada, o Eco Invest sintetiza o fundamento necessário para impulsionar as finanças verdes: usar capital público como catalisador para o capital privado em projetos com taxas de retorno inicial não competitivas ou sem garantias reais de sucesso. Sem isso, argumenta Gouvêa, o recurso privado olharia para outros projetos com perspectivas de rentabilidade melhor.
Há outros entraves nessa equação. “O Eco Invest lida com muitas das barreiras que os investidores enfrentam em projetos sustentáveis”, afirma Andres Comba, da Embaixada do Reino Unido. Além do investimento inicial para redução de riscos, Comba cita a proteção contra grandes variações cambiais e a ajuda na estruturação dos projetos que estão explorando novos campos de negócios. “Os principais desafios para atrair investimentos privados estão sendo endereçados pelo Eco Invest. Por isso o programa é tão inovador e entrega tanto resultado positivo”, diz.
O Eco Invest se estrutura em leilões, cada um deles com modelos diferentes de incentivos ao investimento privado. No primeiro deles, lançado simultaneamente ao programa, no final de 2024, o governo federal ofereceu recursos a instituições financeiras que deveriam apoiar projetos com uma taxa de alavancagem de seis para um. Traduzindo o conceito em números, isso significa que, se um banco público investisse R$ 100 milhões, por exemplo, seriam necessários R$ 500 milhões de recursos privados como contrapartida para totalizar um investimento de R$ 600 milhões. Nessa primeira rodada, também havia a exigência de que as empresas participantes utilizassem capital estrangeiro.
Um dos bancos participantes foi o inglês HSBC, que captou R$ 500 milhões do governo federal para o projeto de combustível de aviação sustentável de macaúba. A responsável pela execução é a Acelen Renováveis, empresa de energia criada pelo Mubadala Capital, com um complemento de R$ 3,5 bilhões para a empreitada. “A Acelen é a primeira empresa do mundo a receber investimentos para criar um projeto integrado desses produtos finais, ou seja, da semente ao combustível”, diz Maíra Peruzzo, gerente de Relações Institucionais.
Com a participação do Eco Invest, a Acelen está construindo na Bahia uma biorrefinaria que será integrada ao parque produtivo da empresa, com laboratórios de pesquisa agrícola onde se realiza um trabalho de melhoramento genético da macaúba. Já foi possível, com isso, desenvolver sementes com taxa de germinação superior a 80%, contra menos de 5% na natureza.
Peruzzo explica que a escolha do fruto se deu por suas características naturais. A macaúba precisa de pouca água para se desenvolver e é adequada para plantio em áreas já degradadas. Além disso, é muito oleaginosa e produz dez vezes mais óleo por hectare que a soja, por exemplo. Por fim, o biocombustível feito de macaúba é drop-in ready para a indústria da aviação, ou seja, não demanda nenhum tipo de adaptação nas aeronaves para ser utilizado.
A Acelen espera produzir 1 bilhão de litros de óleo de macaúba por ano em até dez anos a partir de uma área plantada de 180 mil hectares no eixo entre Montes Claros, no norte de Minas Gerais, e Salvador, com foco no Recôncavo Baiano. Desse total, 36 mil hectares serão de responsabilidade de agricultores familiares. “A gente traz todos os elementos de bioeconomia de soluções baseadas na natureza”, afirma Peruzzo. A Acelen também está trabalhando junto aos agricultores para auxiliar na capacitação, na regularização fundiária e nas garantias financeiras.
É uma proposta ambiciosa, com um horizonte de resultados desconhecido, mas que precisa ser executada neste momento. “Como é um projeto novo, bancos e investidores buscam referências. As próprias seguradoras têm dificuldade de relacionar os verdadeiros riscos. Não existem dados”, conta a gerente da Acelen. Nesse cenário, “o blended finance significa acreditar no desenvolvimento do setor e traz essa segurança para o investidor”.
Blended finance, ou finanças mistas, é justamente o modelo do primeiro leilão do Eco Invest. Os leilões subsequentes do programa estão experimentando outros mecanismos para atração de recursos privados no setor, como uma participação maior de fundos de investimento. Ao todo, o Eco Invest já mobilizou R$ 140 bilhões em investimentos sustentáveis para o Brasil. São projetos que incluem biorrefinarias, fábricas de enzima para melhorar a produtividade de biocombustíveis, projetos de saneamento e tratamento de esgotos, entre outros. “Antes, o setor de ESG (Ambiental, Social e Governança, na sigla em inglês) estava meio escondido nos bancos, era apenas pró-forma”, diz Mario Gouvêa. “Agora, com a contribuição do Eco Invest, está se tornando protagonista.”
Em conversas ainda iniciais, outros países já demonstram interesse em adaptar o modelo, até mesmo com a participação britânica nessas discussões. “Nós temos uma parceria técnica muito valiosa com o Reino Unido”, afirma Gouvêa. “O Eco Invest usa recursos do governo brasileiro, mas nós não tínhamos como gastar em algumas consultorias, que não seriam contratadas no ritmo que a gente precisava. A ajuda deles foi muito importante.”

Graças ao blended finance, que alia recursos do programa UK Pact com investimentos privados, boa parte dos dormentes – as toras de madeira que sustentam os trilhos – do metrô de Londres são fabricados no Brasil, com madeira de angelim vermelho, angelim pedra, cupiúba e pequi retirada de maneira sustentável. Foto: Winston Tjia
A floresta em pé
Se o investimento em biocombustíveis envolve um grau elevado de risco, outras iniciativas são ainda mais incertas. Em março, o Serviço Florestal Brasileiro fez a primeira concessão para restauração florestal no Brasil. O modelo é inédito. A empresa Re.green ganhou o leilão para investir R$ 87 milhões ao longo de 40 anos na recuperação de mais de 6 mil hectares dentro de uma área de 51 mil hectares na Floresta Nacional (Flona) do Bom Futuro, em Rondônia. O empreendimento prevê a redução do equivalente a quase 2 milhões de toneladas de emissões de gases do efeito estufa, que poderão ser vendidas pela Re.green no mercado de créditos de carbono. Além disso, há perspectiva de grande geração de empregos na região.
“É um projeto inovador em termos de finanças verdes, mesmo no contexto global. Uma vitória”, diz André Chaves, gerente da área de Florestas e Restauração do Imaflora, organização brasileira que atua na área ambiental há 30 anos. Com recursos do UK PACT da ordem de R$ 10,7 milhões, o Imaflora trabalha em parceria com a Systemiq, empresa de consultoria com foco na economia verde, junto ao Serviço Florestal Brasileiro para otimizar uma série de processos dentro do sistema de concessões florestais.
Para Chaves, trata-se do pontapé inicial para que outros atores comecem a ingressar num mercado em que a meta brasileira, declarada internacionalmente, é restaurar 12 milhões de hectares até 2030. “É um setor enorme e que vai se tornar ainda maior com a consolidação do mercado de carbono”, afirma.
Os recursos do UK PACT e o trabalho do Imaflora “ajudaram muito na estruturação dessa primeira concessão de restauração”, conta Renato Rosenberg, diretor de Concessões do Serviço Florestal Brasileiro. A parceria começou em 2024, com foco inicial nos acordos para manejo florestal e exploração madeireira – os concessionários podem explorar até cinco indivíduos arbóreos por hectare em um ano, num sistema de rodízio em que um hectare só pode voltar a ser trabalhado depois de 30 anos.
Criado há quase 20 anos, o programa de concessão nas Flonas aos poucos se expande na Amazônia com resultados positivos em termos de redução de desmatamento, faturamento para as concessionárias, distribuição de renda e impacto na economia local.
A Madeflona foi uma das primeiras a receber uma concessão florestal, em 2008, na Flona Jamari. Em 2013, a empresa assumiu uma segunda área, na Flona Jacundá, e em 2019 uma terceira, de novo na Flona Jamari. Ao todo, a Madeflona trabalha hoje com 140 mil hectares para exploração madeireira.
No início havia muita incerteza sobre como seria essa articulação com o governo. Mas, ao longo do tempo, a gente entendeu que aquilo que parecia uma utopia dos pesquisadores que desenvolviam manejo florestal dava certo na prática
Evandro Muhlbauer, diretor da Madeflona
Além de colocar em prática a tese de que a floresta em pé tem mais valor – financeiro e ambiental –, o modelo das concessões também garante segurança jurídica às empresas envolvidas. Entre os clientes atendidos estão fabricantes de caminhões e implementos agrícolas, movelaria de alto padrão, construção civil, produtores de diques para contenção do oceano na Holanda e de linhas ferroviárias no Brasil, nos Estados Unidos e na Inglaterra.
Em Londres, a empresa Timber Fox utiliza insumos da Madeflona nos dormentes do metrô, as toras de madeira onde são apoiados os trilhos. O diretor da Madeflona explica que essas peças demandam características físicas específicas por conta do estresse que sofrem, como baixa vibração e mais resistência. As quatro espécies de árvores exploradas pela empresa – angelim vermelho, angelim pedra, cupiúba e pequi – têm exatamente estas características. Além disso, diz Muhlbauer, a Timber Fox é rigorosa nos termos da sustentabilidade da cadeia de fornecimento.
Ainda que o resultado seja bom, há espaço para a expansão das concessões florestais, diz Renato Rosemberg. A demanda por madeira no mercado brasileiro é de 12 milhões de metros cúbicos por ano. Para suprir toda essa demanda, seriam necessários 20 milhões de hectares de manejo florestal sustentável. Mas, considerando apenas as concessões federais, por enquanto são apenas 1,3 milhão de hectares.
Um dos objetivos do Imaflora é auxiliar nessa expansão. “Indiretamente, nós aumentamos a capacidade de atuação do Serviço Florestal Brasileiro. E, ao fazer isso, aceleramos esse processo”, conta André Chaves. Outra frente do projeto desenvolvido com os recursos do UK PACT é facilitar o acesso de municípios e estados aos recursos aos quais têm direito por conta das concessões.
As concessões de manejo estão distribuídas em oito cidades do Pará e Rondônia, muitas delas com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) baixíssimo. Por conta da burocracia, era comum as prefeituras locais ficarem sem ver a cor do dinheiro. “Com a parceria, fizemos um trabalho de capacitação técnica nas secretarias de meio ambiente dos municípios, para viabilizar essa transferência de recursos”, explica Chaves.
Como resultado, mais de R$ 10 milhões foram destinados ao Pará, quase R$ 3,5 milhões a Rondônia, e R$ 9,4 milhões aos municípios de Faro, Itaituba, Melgaço, Oriximiná e Terra Santa. O impacto na geração de emprego é igualmente relevante. A Madeflona, por exemplo, emprega em média 450 pessoas ao longo do ano em Itapuã do Oeste, cidade de 10 mil habitantes em Rondônia.
No entanto, a dificuldade de obtenção de investimentos para projetos sustentáveis ainda é um entrave nesse mercado. Evandro Muhlbauer, diretor da Madeflona, e Renato Rosenberg, do Serviço Florestal, são unânimes em afirmar que ainda faltam recursos para os concessionários otimizarem atividades de pesquisas de novas espécies com potencial econômico, para maquinário adequado e para capacitação técnica. Essas conquistas permitiriam dobrar a produtividade.
De qualquer forma, já se abriu um caminho inicial. “Os desafios, tanto em termos de mudanças climáticas quanto em termos de conservação da Amazônia, são gigantes. Talvez sejam os maiores desafios da história da humanidade”, afirma Renato Rosenberg. “Não existe bala de prata. A gente vai precisar de uma série de atores e de modelos. E a iniciativa privada em parceria com governos é muito importante.”
Projetos apoiados pelo Reino Unido
Atuação envolve parcerias com governos federal e estaduais, organizações da sociedade civil, além de centros de pesquisa.
O caminho das finanças verdes
Considerados todos os investimentos do International Climate Finance no mundo, desde 2011 o Reino Unido calcula que foram mobilizados quase R$ 71 bilhões em capital privado. É uma curva ascendente, na qual o valor investido sobe a cada ano.
Essa tendência confirma a percepção de Andres Comba, diretor do UK PACT e assessor sênior em Finanças Verdes da Embaixada do Reino Unido. “O interesse dos investidores é grande. O entrave é que você não tem como ligar essa demanda com uma oferta que esteja pronta, com mecanismo de redução de risco”, diz. Daí a importância de capacitação e assistência técnica para ajudar a viabilizar essas iniciativas.
Para Marcelo Soares, chefe de Global Banking do HSBC, investidor do projeto da Acelen no Eco Invest, o capital público, com regras claras e apoio técnico complementar, potencializa as decisões de investimento. “Como banco, quando a estrutura cria um ambiente previsível para projetos, o capital privado escala”, diz.
Alcançar esse resultado exige um conjunto de mecanismos vastos. Entre eles, capacitação técnica, proteção cambial, investimentos conjuntos de blended finance para redução de risco, incentivos baseados em performance, precisam de interlocução com fornecedores e potenciais clientes para pequenos agricultores. Em resumo, um grande alinhamento do mercado.
À medida que esse ecossistema se consolida, o leque de potenciais investidores se expande, avalia Andrea Minardi, professora do Insper. E, conforme os projetos dão resultados positivos, o capital é direcionado para outras iniciativas. Um exemplo são os parques de energia eólica e solar. “Quando começou, era caríssimo e precisou ser subsidiado. Hoje não precisa mais”, diz ela. “Para a obtenção de hidrogênio verde, o subsídio ainda é necessário.”
Mesmo diante de um cenário geopolítico instável, o movimento das finanças verdes é consistente. Os resultados positivos e o apetite do mercado garantem a continuidade. “A direção está dada, não tem como retroceder agora”, diz Minardi. “Quem vai ignorar o risco climático daqui para frente? Quem vai ignorar o estresse hídrico?” É um caminho sem volta.
Esta história foi produzida com apoio do programa International Climate Finance (ICF), do governo britânico, por meio de parceria institucional com a Embaixada do Reino Unido no Brasil. Trata-se de conteúdo patrocinado, desenvolvido pela Mata N'Ativa com base em pesquisa e entrevistas.
GLOSSÁRIO
Matriz elétrica
Conjunto de fontes utilizadas para gerar eletricidade em um país
Biodiesel
Biocombustível produzido a partir de óleos vegetais ou gorduras, utilizado como alternativa ao diesel de origem fóssil
Soluções de baixo carbono
Soluções que emitem pouco ou nenhum carbono na produção de energia
Gases de efeito estufa (GEEs)
Gases que retêm calor na atmosfera, como o gás carbônico, e causam aquecimento global
Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS)
As ODS são 17 metas globais criadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) para orientar países, empresas e a sociedade na busca por uma sociedade mais justa e que protege o meio ambiente
Mercado de capitais
Ambiente em que empresas e governos captam recursos de investidores para financiar projetos e atividades econômicas
Variações cambiais
Mudanças no valor de uma moeda em relação a outra, que podem afetar custos, receitas e investimentos internacionais
Biorrefinaria
Instalação industrial que transforma biomassa em combustíveis, energia e outros produtos de valor econômico
ESG (Ambiental, Social e Governança, na sigla em inglês)
Conjunto de critérios utilizados para avaliar o desempenho ambiental, social e de gestão de uma empresa ou investimento
Floresta Nacional (Flona)
Unidade de conservação de uso sustentável destinada à proteção das florestas e ao manejo responsável dos recursos naturais
Segurança jurídica
Condição em que leis e regras são claras e estáveis, proporcionando previsibilidade para pessoas, empresas e investidores