Entenda como conhecer a bacia do rio Itacaiúnas pode ajudar a conservar toda a Amazônia
Assim como o restante da bacia Amazônica, essa região no leste do Pará sofre as pressões do desmatamento e da crise climática, mas com uma diferença: há vasta pesquisa científica disponível.
No leste do Pará, próximo ao Tocantins, uma região do tamanho da Suíça guarda um microcosmo que ajuda a explicar o que se passa em toda a Amazônia.
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É a Bacia Hidrográfica do Rio Itacaiúnas (BHRI).
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O rio nasce no alto da Serra da Seringa, no município de Água Azul do Norte e percorre 390 quilômetros até chegar em sua foz, no rio Tocantins, na cidade de Marabá.
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Ele e seus afluentes, como o Parauapebas, o mais importante, abastecem dez municípios da região.
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A bacia fica no chamado Arco do Desmatamento da Amazônia, a região que concentra os municípios com maiores índices de desmate.

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Entre 1985 e 2023, a região perdeu 51% de área de floresta, segundo dados do MapBiomas.

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Mas a floresta e sua exuberante biodiversidade ainda resistem.
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O Mosaico de Carajás reúne seis unidades de conservação federais, incluindo a Floresta Nacional de Carajás, que protegem 800 mil hectares de floresta.
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Nas Terras Indígenas Xikrin do Rio Cateté e Sororó, o conhecimento dos povos originários contribui com a conservação de outros 477 mil hectares de vegetação.
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Por que contar esta história é importante?
Estudar a bacia do rio Itacaiúnas é compreender os impactos sofridos por toda a Amazônia. A região é marcada por conflitos entre a exploração predatória e a conservação da biodiversidade. A ciência feita ali pode apontar caminhos para proteger o maior bioma brasileiro.
Parcerias e colaborações
As pesquisas do ITV em Itacaiúnas têm o apoio do Museu Paraense Emílio Goeldi, Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas do ICMBio, Serviço Geológico do Brasil/Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais, Universidade Federal do Pará e Universidade Federal de Alagoas, entre outros.
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Observar imagens de satélite da bacia do rio Itacaiúnas, no sudeste paraense, ao longo das últimas décadas, é ver um retrato em miniatura de toda a Amazônia. Com área aproximada de 41,3 mil km² – quase o mesmo tamanho da Suíça –, suas paisagens naturais têm sido severamente impactadas por diferentes atividades humanas.
A bacia está inserida no arco do desmatamento região onde a fronteira agrícola avança, que vai do oeste do Maranhão e sul do Pará em direção a oeste, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre; no arco se concentram os maiores índices de desmatamento da AmazôniaArco do desmatamento
Há, porém, uma diferença fundamental neste microcosmo amazônico: existem muitos dados científicos disponíveis. Pesquisadores têm se debruçado em estudar a região, e suas descobertas podem indicar caminhos para a Amazônia como um todo.

Nascido principalmente da confluência de dois rios na Serra da Seringa, município de Água Azul do Norte, no sudeste do Pará, o rio Itacaiúnas corre em direção norte, corta o Mosaico de Carajás e deságua na margem esquerda do rio Tocantins, na altura da cidade de Marabá. FOTO: João Marcos Rosa
De Coudreau ao século XXI
A região de Carajás, na bacia do rio Itacaiúnas, ganhou visibilidade nos anos 1960 com a descoberta de uma das maiores reservas de ferro do mundo. A bacia, no entanto, já era ocupada muito antes. No livro Viagem à Itaboca e ao Itacaiúnas, do explorador francês Henri Coudreau, de 1887, há menção de comunidades indígenas locais, como os Xikrin do Cateté, que ainda hoje ocupam parte do território da bacia. O autor também descreve moradias precárias ao longo das margens dos rios, com moradores não indígenas. Coudreau estimava que a região estava sendo ocupada por pessoas de fora havia pouco mais de um ano.
A obra foi escrita após uma expedição comandada pelo explorador para reconhecimento geográfico do território. São descritos trechos dos rios, como o Itacaiúnas, que tem sua foz no município de Marabá, e o Parauapebas, um de seus principais afluentes. Uma observação curiosa de Coudreau é que os moradores pareciam não praticar agricultura, o que indicava uma dependência do patrimônio natural da floresta e dos rios.
No século 21, o cenário é bem diferente. Pequenas comunidades e aldeias deram lugar a cidades que mantêm o caráter interiorano, mas oferecem infraestrutura urbana. “Quando eu cheguei aqui, a avenida principal era de terra, a rodoviária era bem pequenininha, cercada de barracos de madeira, que eram os comércios”, relembra o engenheiro ambiental David Santos, que há 15 anos deixou o estado de Minas Gerais para viver no município de Ourilândia do Norte, onde trabalha com gestão de recursos hídricos na bacia do rio Itacaiúnas. “Hoje tudo tem iluminação a LED, a rodoviária tem um prédio grande e bonito. Mudou bastante”, comenta.
Assim como nos centros urbanos, o cenário das áreas rurais também mudou: a pecuária passou a ser parte da paisagem e uma atividade econômica importante para a região, assim como a mineração atividade econômica e industrial que inclui a pesquisa, a exploração (lavra) e o beneficiamento de minérios presentes no solo e no subsolo; depende de autorizações, concessões e licenciamentos, entre outrosMineração
Entre as razões para a urbanização e grandes mudanças do território da bacia do rio Itacaiúnas estão a construção de estradas, os incentivos para a ocupação e o desmatamento no período da ditadura e, a partir da década de 1980, as atividades de mineração. “A divisão e a criação de novos municípios foi forçada por questões político-administrativas, justamente para a gestão do território”, explica Rosa Paes, engenheira agrônoma e pesquisadora no Instituto Tecnológico Vale (ITV). Os municípios locais têm, em sua maioria, entre 30 e 40 anos de existência no mapa.
Em sua viagem pelos rios Itacaiúnas e Parauapebas no fim do século 19, o explorador francês Henri Coudreau registrou a presença de povos indígenas e pequenas comunidades ribeirinhas.
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E descreveu como as pessoas da região pareciam não plantar: viviam da floresta e seus rios.
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Hoje, boa parte das aldeias e comunidades deram lugar a cidades.
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A partir da década de 1970, com a campanha da ditadura para integrar a região Amazônica com estradas como a Transamazônica (BR-230) e a Belém-Brasília (BR-010), a região começou a receber migrantes em maior número.
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Isso levou à rápida urbanização e desmatamento de parte da bacia. O garimpo da Serra Pelada, que atraiu mais de 100 mil pessoas na década de 1980, acelerou esse processo.
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Na área hoje protegida como Floresta Nacional (Flona) de Carajás...
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a empresa Vale e o projeto federal Grande Carajás começaram as pesquisas geológicas ainda antes, desde a descoberta das primeiras jazidas de ferro de alto teor, em 1967.
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Em 1985, a primeira mina, N4E, entrou em operação…
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assim como a estrada de ferro Carajás, que começou a escoar o minério até São Luís, no Maranhão.
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Serra Pelada, garimpo ilegal e mineração
Nas últimas décadas do século 20, foi muito intensa a migração de pessoas de todo o Brasil em busca de oportunidades na mineração de ouro. “Serra Pelada região situada na Serra dos Carajás, no Pará, conhecida por ter abrigado o maior garimpo a céu aberto do mundo, que atingiu seu pico entre 1980 e 1983, atraindo mais de 100 mil garimpeiros em busca de ouro áreas para a extração de gemas, minerais metálicos ou não-metálicos valiosos. É considerado ilegal quando não conta com as devidas autorizações. Era visto como uma atividade artesanal, mas o garimpo criminoso tem sido realizado em larga escala na Amazônia, com o apoio de máquinas e infraestrutura carasSerra Pelada
Garimpo
Localizado onde hoje está o município de Curionópolis, o maior garimpo a céu aberto do mundo gerou consequências socioeconômicas e ambientais graves para a região de Carajás. E o garimpo ilegal ainda é uma engrenagem relevante da economia local. “É uma atividade que foi ‘modernizada’, não é mais feita de forma artesanal, envolve maquinários pesados, como caminhões, tratores e dinamites”, afirma o geólogo Gabriel Salomão, pesquisador do ITV. “É uma atividade predatória que não respeita regras ambientais e que tem bases financeiras muito fortes.”
Segundo dados do MapBiomas de 2022, a Amazônia concentra 92% das áreas de garimpo do país. O principal interesse dos garimpeiros está na exploração de ouro: 85,4% do território garimpado no Brasil é para extrair este metal. Nos últimos anos, o crescimento do garimpo ilegal ocorreu, principalmente, por ação de invasores em TIs e UCs. O levantamento aponta que 39% da área garimpada no Brasil estava dentro de áreas protegidas em 2022.
De acordo com Salomão, a atividade irregular de exploração de minérios tem crescido de forma exponencial. “A região de Curionópolis, uma das cidades da bacia, tem muito garimpo de manganês e de ouro. E tem outras regiões que também passaram a ter garimpos, como próximo da cidade de Canaã dos Carajás”, comenta o geólogo. “São terrenos que ficam cheios de buracos; quando você olha imagens de satélite, parecem um terreno lunar.”
O avanço do garimpo prejudica a qualidade das águas e gera problemas ambientais, de acordo com Salomão e outros especialistas. Nos últimos anos, o geólogo e sua equipe têm se dedicado a monitorar a qualidade das águas da bacia do rio Itacaiúnas. Os pesquisadores observaram que, onde há garimpo, há altas concentrações de metais potencialmente tóxicos e piora na qualidade das águas dos rios. Um dos principais problemas causados pela exploração desenfreada do garimpo ilegal é a contaminação com mercúrio. “Enquanto a atividade garimpeira aumenta, a qualidade da água só diminui e, em algum momento, a conta chega para os habitantes da região”, afirma o pesquisador.
Uma parte das atividades ambientais da Vale no mosaico corresponde a contrapartidas exigidas por lei para a exploração do minério – como a criação do Parque Nacional dos Campos Ferruginosos. A fração predominante dos investimentos, porém, é voluntária. De acordo com a Vale, entre 2009 e 2020, o aporte financeiro foi de R$ 1 bilhão, dos quais R$ 910 milhões não eram obrigatórios.
Entre as atividades voluntárias estão a recuperação de 100 mil hectares de florestas e a proteção de 400 mil hectares além das fronteiras da companhia. Outras ações são monitoramento ambiental, conservação da biodiversidade, educação ambiental, apoio técnico e financeiro para a bioeconomia e pesquisa científica, por meio do ITV.

A lagoa das Três Irmãs, localizada no Parque Nacional dos Campos Ferruginosos, é uma das muitas lagoas formadas pela água da chuva no alto da Serra Sul de Carajás. FOTO: João Marcos Rosa
Segundo dados do MapBiomas de 2022, a Amazônia concentra 92% das áreas de garimpo do país.
O principal interesse dos garimpeiros está na exploração de ouro:
Nos últimos anos, o crescimento do garimpo ilegal ocorreu, principalmente, por ação de invasores em terras indígenas (TIs) e unidades de conservação (UCs).
Para o superintendente regional do Serviço Geológico do Brasil (SGB) em Belém, Homero Reis de Melo Jr., é preciso diferenciar o garimpo ilegal da atividade mineradora. “As empresas de mineração atividade econômica e industrial que inclui a pesquisa, a exploração (lavra) e o beneficiamento de minérios presentes no solo e no subsolo; depende de autorizações, concessões e licenciamentos, entre outrosMineração
Na bacia do rio Itacaiúnas, há mineradoras desde meados do século 20. A Vale desenvolve atividades no Mosaico de Carajás desde os anos 1980. Em 2024 produziu 328 milhões de toneladas de ferro. Atualmente as operações da empresa ocupam 3% do mosaico, formado por seis unidades de conservação ambiental geridas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) com o apoio da empresa.
O ferro é o principal minério extraído pelas empresas no local, mas há também exploração de níquel, cobre, ouro e manganês. Por muito tempo, o estado de Minas Gerais se destacou pelas grandes reservas de minério, mas a região amazônica ganhou crescente relevância para o negócio.
Ao longo de décadas, no entanto, aumentaram as denúncias de contaminação das águas por conta da exploração de metais na Amazônia. “Essa é uma área muito rica na tabela periódica como um todo, quase todo o território tem altas concentrações de tudo”, diz o geólogo Gabriel Salomão.

Anta (da espécie Tapirus terrestris) atravessa o rio Itacaiúnas na Floresta Nacional Tapirapé-Aquiri. São pelo menos 44 espécies de mamíferos de médio ou grande porte já registradas no Mosaico de Carajás. FOTO: João Marcos Rosa
Em 2023, Salomão publicou um artigo em parceria com cientistas da Universidade Federal do Pará (UFPA), da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), do Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM) e da Universidade Central de Punjab, na Índia, apontando que entre 2017 e 2022 a qualidade da água na bacia do rio Itacaiúnas piorou muito. Para diferenciar o que é natural das rochas e solo amazônicos daquilo que surgiu como consequência da exploração dos minerais, ele e seu grupo de pesquisa investigaram as assinaturas geoquímicas permite que cientistas identifiquem a origem de um material, porque determinada combinação de elementos químicos pode funcionar como uma 'impressão digital' de uma rocha, solo, água ou depósito mineralAssinatura geoquímica dos elementos
Entre os elementos químicos registrados acima dos limites aceitáveis estão manganês, alumínio, bário, chumbo, ferro, cobre, cobalto, cromo, níquel, vanádio e zinco. De acordo com a pesquisa, a principal causa para esse impacto na qualidade da água é o crescimento do garimpo na região. As imagens de satélite mostraram um crescimento de 1,5 mil hectares (2.883%) nas cicatrizes deixadas pelo garimpo, área equivalente a 2,1 mil campos de futebol, entre 2017 e 2021.
De acordo com José Oswaldo Siqueira, ex-Diretor Científico do ITV Desenvolvimento Sustentável, a mineração atua com critério, tecnologia e rigor para evitar tragédias ambientais, especialmente depois dos acidentes em Mariana (MG), em 2015, e em Brumadinho (MG), em 2019. “Esses acidentes acenderam um alerta de que nós precisávamos conhecer melhor a bacia do rio Itacaiúnas, para prevenir que acontecesse ali”, conta Siqueira. “Sempre existe impacto da atividade [mineradora], mas foi a própria mineração que também ajudou a proteger a floresta.”

Anfíbio (da espécie Dendropsophus gr. microcephalus) na Flona Tapirapé-Aquiri. Pelo menos 68 espécies de anfíbios já foram registradas no Mosaico de Carajás. FOTO: João Marcos Rosa
Janela para o futuro da Amazônia
“Quando você sobrevoa a região de Carajás, você vê pela janela do avião uma imensidão de floresta protegida de um lado e uma área desmatada também muito grande do outro lado”, conta Salomão. “Pouco mais da metade da bacia do Itacaiúnas hoje é pasto”, afirma. Ali, 50% da floresta já foi derrubada nas últimas décadas. “Se não fossem as unidades de conservação, como a Tapirapé-Aquiri de Carajás, provavelmente o desmatamento seria bem maior.”
Desde 1985, mais de 90% das áreas desmatadas na Amazônia se tornaram pasto, de acordo com um levantamento do MapBiomas. Toda essa supressão vegetal tem grande impacto sobre a bacia e é consequência de um processo predatório que predomina em várias partes da Amazônia, segundo Siqueira.
Devido à sua localização no Arco do Desmatamento, o complexo de áreas protegidas da qual a Tapirapé-Aquiri de Carajás faz parte tem grande relevância do ponto de vista da conservação da biodiversidade. No entanto, devido ao desmatamento, essas áreas protegidas estão isoladas, o que dificulta a movimentação das espécies em busca de alimento, parceiros sexuais ou áreas mais adequadas climaticamente. Por isso, considerar a construção de áreas de conectividade, ou corredores ecológicos, é importante. Dois estudos desse tipo foram conduzidos no ITV. Um deles, publicado em 2021, buscou identificar esses corredores para o oeste, visando conectar Carajás ao complexo de áreas protegidas da Terra do Meio. O outro, publicado em 2022, identificou áreas à leste, dentro da bacia do rio Itacaiúnas. Ambos consideraram, inclusive, as mudanças climáticas, identificando áreas climaticamente adequadas atuais e futuras, de forma a proteger as espécies desse impacto.
Para se ter uma ideia da importância da biodiversidade na Tapirapé-Aquiri de Carajás, foram registradas 646 espécies de aves, o que torna esta a região mais rica do Brasil em aves e uma das mais diversas do mundo. Há registro também de 53 espécies de borboletas e 122 espécies de abelhas. Esses três grupos são importantes para o processo de polinização e dispersão de sementes da flora local. Um estudo do ITV concluiu que o estado do Pará se beneficia em quase R$ 5,6 bilhões por ano dos serviços de polinização, cerca de um terço do total da sua produção agrícola. Entre as abelhas estão as meliponíneas, sem ferrão, como as que polinizam o açaí e produzem um tipo de mel local, o mel de açaí, único no mundo.
Na região de cangas ecossistemas vegetais associados a locais onde ocorre o afloramento de campos rupestres ferruginosos. Também conhecidas como campos ferruginosos, abrigam seres vivos muito específicos e adaptados às características dessa vegetaçãoCangas

Surucuá-de-coleira (da espécie Trogon collaris) na Flona Tapirapé-Aquiri. FOTO: João Marcos Rosa
Martins também destaca as espécies de morcegos e invertebrados que vivem em cavernas na região e que estão sendo mapeadas pelo instituto. “Esta é uma fauna pouco estudada e com raros taxonomistas especializados. Esses estudos são referências tanto na descoberta de espécies e compreensão de sua ecologia, quanto na inovação da metodologia usada, a genômica ambiental. O DNA sequenciado, associado ao conhecimento taxonômico, ajuda a determinar se uma espécie é ou não nova”, explica.
Outra exclusividade da bacia é o jaborandi, planta de grande valor para a indústria farmacêutica e cosmética. A espécie foi descoberta pelos povos originários locais e utilizada como medicamento. Hoje se sabe que é a única fonte natural de pilocarpina (substância usada no tratamento de doenças oculares, como o glaucoma) no mundo.
A planta é muito importante para comunidades locais, que têm a coleta do jaborandi como uma das principais fontes de renda. O ITV contribui com a atividade por meio de pesquisa e ações de manejo. “Ela é socioeconomicamente importante, muitas populações ali fazem a exploração sustentável do jaborandi, mas elas estão sendo muito afetadas pelas mudanças climáticas”, aponta o biólogo Rafael de Fraga, pesquisador de biodiversidade no instituto.
Análises de séries históricas indicam tanto secas mais longas e severas quanto um aumento de 0,6°C, entre 1991 e 2020, da temperatura média na bacia. “Pode parecer um aumento pequeno, mas, para que as plantas possam realizar fotossíntese e todo um conjunto de reações químicas, já é muito, porque a temperatura afeta a função biológica das proteínas necessárias para a fotossíntese”, diz Fraga.
De acordo com o especialista, o processo todo se retroalimenta: “O aumento do calor e as perdas de umidade, de produtividade primária quantidade de energia (ou biomassa) produzida pelos organismos autotróficos — como plantas, algas e cianobactérias — por meio da fotossíntese quantidade total de matéria orgânica presente nos seres vivos de um ecossistemaProdutividade primária
Biomassa
Cerca de 95% das chuvas acontecem entre dezembro e abril ou maio”, afirma Paulo Pontes, engenheiro civil e pesquisador do ITV. “É uma bacia que fica na fronteira entre o bioma amazônico e o Cerrado, então tem suas peculiaridades, que a gente pode chamar de paradoxo da Amazônia: uma região muito rica e abundante em água, mas que pode enfrentar secas intensas.” Os períodos sem chuva podem ser superiores a 30 dias.
Com os avanços tanto da crise do clima quanto do desmatamento, a situação tende a se agravar não só na região do Itacaiúnas, mas também em todo o bioma amazônico. Para muitos dos especialistas, a bacia pode ser considerada um microcosmo do bioma e entendê-la com profundidade é uma forma de encontrar caminhos. “O cenário atual da bacia do rio Itacaiúnas é um reflexo do que a bacia Amazônica pode vir a enfrentar com metade de seu território já desmatado. A bacia antecipa, em menor escala, o futuro da Amazônia caso não haja reforço urgente nas políticas de proteção”, avalia Pontes.
GLOSSÁRIO
Arco do desmatamento
região onde a fronteira agrícola avança, que vai do oeste do Maranhão e sul do Pará em direção a oeste, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre; no arco se concentram os maiores índices de desmatamento da Amazônia
Serra Pelada
região situada na Serra dos Carajás, no Pará, conhecida por ter abrigado o maior garimpo a céu aberto do mundo, que atingiu seu pico entre 1980 e 1983, atraindo mais de 100 mil garimpeiros em busca de ouro
Garimpo
áreas para a extração de gemas, minerais metálicos ou não-metálicos valiosos. É considerado ilegal quando não conta com as devidas autorizações. Era visto como uma atividade artesanal, mas o garimpo criminoso tem sido realizado em larga escala na Amazônia, com o apoio de máquinas e infraestrutura caras
Mineração
atividade econômica e industrial que inclui a pesquisa, a exploração (lavra) e o beneficiamento de minérios presentes no solo e no subsolo; depende de autorizações, concessões e licenciamentos, entre outros
Assinatura geoquímica dos elementos
permite que cientistas identifiquem a origem de um material, porque determinada combinação de elementos químicos pode funcionar como uma 'impressão digital' de uma rocha, solo, água ou depósito mineral
Cangas
ecossistemas vegetais associados a locais onde ocorre o afloramento de campos rupestres ferruginosos. Também conhecidas como campos ferruginosos, abrigam seres vivos muito específicos e adaptados às características dessa vegetação
Produtividade primária
quantidade de energia (ou biomassa) produzida pelos organismos autotróficos — como plantas, algas e cianobactérias — por meio da fotossíntese
Biomassa
quantidade total de matéria orgânica presente nos seres vivos de um ecossistema

